Desenho de Taciane, minha filha de cinco anos.

Eram dez para dezoito horas. Adônis estava quase atrasado. Correu até à parada de ônibus para ir à casa de Isolda, sua namorada. A pressa era em razão de a condução (interbairros) passar exatamente às dezoito horas, e só passaria novamente meia hora depois. O trajeto é longo, pois ele morava no bairro do Coroado (zona leste), ela, na Compensa (zona centro-oeste, tendo o Bairro do Centro como referência), apesar da azáfama, não esqueceu o livro que sua namorada lhe emprestara, ou melhor, fizera levá-lo para ler. Trata-se do clássico “A Divina Comédia” de Dante Alighieri. Isolda fazia o curso de Letras na Universidade Federal do Amazonas. Gostava muito de leitura, sobretudo dos autores clássicos gregos e latinos. Era uma jovem com vinte anos apenas, bonita e inteligente; cabelos lisos, típicos das amazônidas, olhos pretos amendoados, nariz médio afilado, rosto oval e cútis morena cor de jambo. Adônis também era jovem, com vinte e dois anos. Estatura acima da média, corpulento, pele branca, cabelos caracolados e olhos castanhos claros, descendente de nordestino. Depois de concluir o ensino médio, não quis mais saber de ler nem de estudar. Mas Isolda o aconselhava e o incentivava sobremaneira a estudar ou ler alguma coisa principalmente o que estava lendo e julgava interessante.
Adônis estava aproveitando o feriado de Sexta-Feira Santa para se encontrar com Isolda, pois ele trabalhava no distrito industrial da capital e só podia vê-la nos fins de semana. Apesar de ter folga à noite, não se viam porque ela estudava em curso noturno. Ia levando o livro (pela terceira vez) para devolvê-lo, mas Isolda perguntava sempre se ele o tinha lido; quando resposta era afirmativa, ela, então, queria saber do enredo, se ele não soubesse, mandava-o levar de volta. E, neste dia, ele tinha somente lido cinco laudas. Achou muito complicado entendê-lo porque estava em verso. Mesmo assim, tentou novamente devolvê-lo.
-Oi!
-Oi!
-Eis seu livro.
-Leu todo?
-Sim. Li.
-Duvido!
-Ah, não li não. Você sabe que eu não tenho hábito de leitura. Já deixei de estudar com preguiça de ler. Ainda mais um calhamaço desse e supercomplicado assim...
-Ah, não diga isso, amor... Ler faz bem à alma, a leitura é o alimento para o espírito. Assim como precisamos alimentar nosso corpo, necessitamos também manter o intelecto ativo através do exercício mental que praticamos ao ler.
- Mas dizem que ler muito deixa a pessoa doida.
-Não... Você sabe que isso é crendice. É só pretexto para justificar o marasmo mental para não ler. Nunca vi nem ouvi falar de alguém que enlouqueceu por causa de leitura.
-Não vou mais levá-lo!
-Ah, lhe falei que quando ler o “Primeiro Canto”, vai gostar. Um livro nos ensina muito, liberta e nos desperta para o conhecimento do mundo e da vida, aumenta nosso vocabulário, e ainda nos prepara para sairmos de uma série de situações embaraçosas com as quais nos deparamos no cotidiano.
-Táá! Tudo bem, eu levo novamente.
E assim ela o convenceu (outra vez) de levar o livro para ler. Já eram vinte e três horas quando ele se despediu de Isolda e se dirigiu para a parada de ônibus que ficava um pouco distante. Ao se aproximar de um beco penumbroso, foi interpelado por uma gangue armada que o cercou:
-Parado aí, otário!
Adônis, atônito, não falou nada. Apenas levantou os braços a partir dos cotoveles.
-Queremos tudo que você tem aí! Ordenou o líder, olhando para ele e observando o livro grande de capa preta embaixo do braço esquerdo de Adônis. Ele vestia uma camisa manga longa cinza de cambraia, calça e sapato pretos.
-Você é crente?
-Sim! Sim! Sou.
-Então, pode ir embora. Não mexo com essa gente. Mamãe também é. E hoje é Sexta-Feira Santa, fazer mal para vocês dá um azar danado.
Adônis saiu quase correndo, prometendo para si próprio ler o livro todo, ao chegar à sua casa e já começou a lê-lo no ônibus.
Fiz este conto para incentivar a leitura e homenagear a obra "A DIVINA COMÉDIA" de Dante Alighieri.