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domingo, 12 de agosto de 2012

Eterna lembrança

Desenho de Taciane, minha filha com sete anos.





Eu estava à espera do teu nascimento.
Teu berço tinha tudo que não tive.
Preparei o melhor lar em que se vive
Com amor, carinho e contentamento.

Mas Tânatos impediu meu portento:
Levou-te na hora que contigo estive.
Ainda sofro com a mágoa que obtive
Por ires tão angélico ao firmamento.

E ao chegar à morada de Hades tétrico,
Foi hospedado pelo fâmulo hostil,
Que  conduziu a teu quarto tautométrico.

E assim, lançando-te na face a terra,
Ele sequer dó ou angústia sentiu
Mesmo vendo que tua luz no espaço erra.

Bento Sales

Fiz este poema para meu sobrinho falecido aos três dias de nascido há treze anos. 

domingo, 29 de julho de 2012

HERMÉTICO

Desenho de Taciane, minha filha com sete anos.

Gosto de aedo de palinódia obducta,
Que medre opúsculo de escopo arcano,
Que o zoilo, em diatribe e quão ufano,
Se areie na sua ilação fugaz e abrupta.


Porque a exegese do ínvio se enluta;
Para exauri-la tem que ser magano
E elucubrar por prescindir o engano
E a logomaquia nunca se refuta.

O anfiguri é curial do abderítico,
E no impérvio não há tautometria:
Dédalo é fósmeo até para o crítico.

Esse bardo é epônimo de Hermes,
Não engendra nênia nem hipocondria,
Sua obra pretere hermeneutas inermes.



Fiz este soneto com palavras preciosistas para surpreender meus colegas e o professor num trabalho de semântica quando fazia graduação em Letras.  Á primeira vista, tem-se a impressão de que não é português, mas o é e tem nexo. Como disse o linguista Evanildo Bechara:
"O falante tem que ser poliglota em sua própria língua". 
Reedito o poema agora como tributo e lembrança de meu amigo Phelipe Castanho, do blog Caixa de Pandora, que nos deixou em 31 de julho de 2011. Como era ótimo poeta e contista, sentiu-se desafiado por não entender o poema, então, pediu-me permissão para copiá-lo e “traduzir para o português falado aqui na Terra” – conforme suas palavras. Depois o publicou em seu blog com o título: “Desafio do Professor Bento Sales”. Ficou ótimo e praticamente outro poema. Apesar de ser ipsis litteris, contém a essência do poema. Pediu-me desculpas por não fazer rimado. Para mim foi muito importante, pois era estreante na Blogosfera. Ele era um grande homem e muito amigo, mesmo, merece essa minha  singela homenagem.



Hermético (tradução de Phelipe Castanho)


Gosto dos poetas da antiguidade que faziam poemas sombrios e rimados,
Que fizeram crescer esta arte misteriosamente até hoje.
Mas que é criticada mordazmente por leigos
Que se baseiam em conclusões rápidas e sem nexo.

Porque um comentário de quem não conhece é lastimável.
Tentam acabar com esse tipo de cultura,
Mas ela veio através do tempo e ninguém consegue destruir.
Por mais que se discuta, ela vence e prospera.

Os textos são (aparentemente) sem ordem alguma e eram cantados nas reuniões antigas.
Por serem de difícil entendimento, (muitos acham que) ficam monótonos.
São (parecem) confusos a ponto de ficarem (acharem) impossível de estabelecer uma critica.


Mas venho em defesa deles:
Não tentando mostrar o lado triste e doentio,
Mas mostrar a beleza dos poemas daqueles que cultuavam Hermes.



sábado, 12 de maio de 2012

Homenagem às mães

Desenho de Taciane, minha filha com seis anos.
Mãe, um pedaço do Céu, Leonardo Sullivan




Não tenho mais mãe, avó, tampouco, sogra. Convivi pouco com meus pais. Minha avó me fez papel de mãe. Quando casei, deparei-me com uma pessoa amável comigo, como uma mãe, que foi a mãe de minha esposa. Sei que sogra é motivo de piada e aversão por parte dos genros, em razão da superproteção aos filhos casados. No entanto, minha sogra me tratava como um filho. Gostava mais dela até mais que da minha mãe. Como no ano passado fiz uma homenagem à minha avó, este ano vou homenagear minha sogra publicando um poema (soneto) que fiz em seu tributo. Essa música do vídeo eu a escutava muito na infância e desejava ter uma mãe igualzinha à descrita na letra. Ainda hoje me emociono ao ouvi-la. Bem, desejo a todos visitantes um feliz Dia das Mães.




A TRISTE PARTIDA
(À Luzia  Parente)


Sem sequer poder, de nós, despedir-te,
Deixando-nos em prantos e na saudade,
E quão desesperados em soledade
Assistindo, impotentes, a ti partir.

E agora, nós estamos órfãos e tristes,
Espelhando-nos sempre na tua bondade
No teu exemplo de amor, na tua dignidade,
Viveremos, assim, desde que partiste.

Só nos consolamos co’a triste partida,
Porque acreditamos que o Pai Celestial
Já te escreveu no etéreo Livro da Vida.

Foste-te, porque a tua missão foi cumprida:
Que foi nos semear o teu amor maternal,
Mas tua ausência sempre nos será sentida.


  
Bento Sales




domingo, 25 de setembro de 2011

PSICOLOGIA DE UM MELANCÓLICO

Desenho de Taciane, minha filha com seis anos.

Eu não sei por que nem para que existo!
Sem opção, já nasci nesta indigência.
Sou eterno servil da sobrevivência,
Que priva minha essência, mas resisto!

Ainda tenho que a minha alma, além disto,
Conquistá-la antes de minha consciência;
Porque para a infinita convivência
Com arcanjos tenho que ser benquisto.

Se, quiçá, fosse um mero natimorto,
Seria sobremaneira mais feliz,
Visto que não sofreria assim, absorto.

O penar não me leva ao Cosmo Eterno,
Muito menos por ser um infeliz.
Não suporto mais viver neste averno!



  



Este poema é uma reedição atendendo  o pedido de um amigo pessoal, que gosta dele. Pediu-me para mostrar para meus novos amigos. Fiz este poema inspirado no famoso soneto 
Psicologia de um vencido de Augusto dos Anjos.                                                                 
          

   
    




domingo, 7 de agosto de 2011

Tributo a Phelipe Castanho - Caixa de Pandora

Homer Simpson





Dia 31 de julho, eu perdi um grande amigo e incentivador daqui do blog, Phelipe Castanho, do blog Caixa de Pandora. Ele era um grande poeta e divulgava sua poesia em outro blog chamado de Garbage Dump ambos desativados por seu desejo em vida. Toda vez que eu publicava, ficava imaginando a sua reação, pois sabia que comentaria e deixava sempre palavras amistosas. Fiquei tão desolado que pensei até em desistir do blog, mas repensei e vi que suas lembranças estão aqui. Vou deixar dois exemplos de seus comentários para o amigo leitor constatar o quanto éramos amigos. Coloquei a imagem do Homer Simpsom porque gostava dele. Eu tive um poema que ele analisou e interpretou, clique aqui  (HERMÉTICO).

 Diante disso, fiz um poema (soneto) para fazer uma modesta homenagem a ele.
Caixa disse...
Bento estou sem palavras.
Sua maior virtude é a modéstia.
Porque faz tudo de forma perfeita mesmo.
Contos, haicais, poemas, e até musicas.
Que grande talento.
Sinto até orgulho de ter um amigo assim tão completo na arte de escrever.
Aplausos a você mestre.

Caixa disse...
Eu que sou grato a você por toda atenção que tem para comigo e minha Caixa.
Sua amizade foi uma das melhores coisas que encontrei aqui neste meio.
Pode acreditar é sincera minha admiração por você.
  Súbita partida


Amigo, partiu sem nos avisar
Deixando boas lembranças para nós,
Agora estamos tristonhos e sós.
A saudade é grande e singular.

Tânatos, vil que vem sem anunciar,
Tira nossas vidas de guisa atroz,
Pois é inexorável e feroz
É quem um por um de nós vem buscar.

Sempre viverá em nossa memória;
Mesmo estando com o coração ferido,
Reviveremos sua vida, sua glória.

Só aceito essa súbita partida,
Apesar de não ter tudo cumprido,
Porque podemos nos ver noutra vida.


Bento Sales
Manaus, 06/08/2011.



sábado, 18 de junho de 2011

SONETO DO ENCANTAMENTO

Desenho de Taciane, minha filha de cinco anos.

Eu me intitulo romântico, porém tenho publicado pouco texto deste gênero. 
Em razão disso, resolvi postar esse poema (soneto) que considero de um romantismo extremo.

Ó, minha Iara, não resisto seu encanto!
Divago por um ermo taciturno
Guiado por um sentimento soturno
E uma desilusão elegíaca e um pranto.

Ao te ver, sinto-me feliz, portanto;
Vejo a Lua a alumiar o meu Céu noturno,
O Éden e o horizonte assim diuturnos
Que me imbui de verve, alento e canto.

Vivo em virtude de ter esperança
De um dia sentir sua voluptuosidade
Que almejei nesta triste intemperança.

E assim, realizarei esse amor platônico
Que me deixa sem o senso e a liberdade
De sentir outro amor também atônito.


sábado, 7 de maio de 2011

ÚLTIMO ADEUS (à minha querida avó, Olga)

Desenho de Taciane, minha filha de cinco anos.

Como todos estão fazendo homenagem às mães, também gostaria de fazer mesmo não tendo mais mãe, avó nem sogra. Então, dessas, a mais recente falecida foi minha avó paterna, que foi no ano passado; na ocasião, apesar de distante de minha raiz, fiz um poema (soneto) em tributo à minha querida vó. Eu a considero minha mãe, pois preencheu a falta desta  na infância. Para mim, todos os dias é dia das mães. Porém, quero que todas as mães (e avós) que por aqui passarem sintam-se homenageadas:

Foste-te após nos gerar e nos criar
Porque Deus te concedeu essa missão.
É imensa a saudade e a solidão,
Porém agora temos que aceitar.

Seu último adeus nem pôde anunciar...
 Não pudemos te pedir tua bênção,
E, a ti, por tudo, minha gratidão!
Mas isso, vó, não vai me consolar.

O teu nome está no Livro da Vida
Inscrito pelo nosso Pai Maior
Disso estou ciente e sei que ninguém duvida.

A pouco nos veremos noutra vida;
É por isso que hoje vivo melhor
Mesmo com a saudade desmedida.






quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

HERMÉTICO

Gosto de aedo de palinódia obducta,
Que medre opúsculo de escopo arcano,
Que o zoilo, em diatribe e quão ufano,
Se areie na sua ilação fugaz e abrupta.
*
Porque a exegese do ínvio se enluta;
Para exauri-la tem que ser magano
E elucubrar por prescindir o engano
E a logomaquia nunca se refuta.
*
O anfiguri é curial do abderítico,
E no impérvio não há tautometria:
Dédalo é fósmeo até para o crítico.
*
Esse bardo é epônimo de Hermes,
Não engendra nênia nem hipocondria,
Sua obra pretere hermeneutas inermes.



Fiz este poema com palavras pesquisadas ao longo da vida estudantil
para apresentar num trabalho de semântica. Á primeira vista, tem-se a
impressão de que não é português, mas é e tem nexo. Como disse o
linguista Evanildo Bechara: "O falante tem que ser poliglota em sua própria língua".



Tradução e interpretação do meu amigo Felipe, do blog Caixa de Pandora:

Gosto dos poetas da antiguidade que faziam poemas sombrios e rimados,

Que fizeram crescer esta arte misteriosamente até hoje.
Mas que é criticada mordazmente por leigos
Que se baseiam em conclusões rápidas e sem nexo.

Porque um comentário de quem não conhece é lastimável.
Tentam acabar com esse tipo de cultura,
Mas ela veio através do tempo e ninguém consegue destruir.
Por mais que se discuta, ela vence e prospera.

Os textos são (aparentemente) sem ordem alguma e eram cantados nas reuniões antigas.
Por serem de difícil entendimento, (muitos acham que) ficam monótonos.
São (parecem) confusos a ponto de ficarem (acharem) impossível de estabelecer uma critica.


Mas venho em defesa deles:
Não tentando mostrar o lado triste e doentio,
Mas mostrar a beleza dos poemas daqueles que cultuavam Hermes.




Gostei muito desta interpretação. É praticamente outro poema, mas muito mais acessível ao entendimento. Felipe fez um trabalho maravilhoso e com capricho, sou muito grato a ele.




quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Psicologia de um melancólico

Eu não sei por que nem para que existo!
Sem opção, já nasci nesta indigência.
Sou eterno servil da sobrevivência,
Que priva minha essência, mas resisto!
*
Ainda tenho que a minha alma, além disto,
Conquistá-la antes de minha consciência;
Porque para a infinita convivência
Com arcanjos tenho que ser benquisto.
*
Se, quiçá, fosse um mero natimorto,
Seria sobremaneira mais feliz,
Visto que não sofreria assim, absorto.
*
O penar não me leva ao cosmo eterno,
Muito menos por ser um infeliz.
Não suporto mais viver neste averno!

Fiz este soneto inspirado no poema "Psicologia de um vencido" de Augusto dos Anjos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Soneto de fidelidade






De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinícius de Moraes

sábado, 25 de setembro de 2010

Alma minha


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente
e viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te
quão cedo de meus olhos te levou.
(Luís de Camões)

sábado, 18 de setembro de 2010

A cada canto

Soneto

Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
  
Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.
 
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,
  
Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.
  
Gregório de Matos Guerra

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Versos íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos.

Psicologia de um vencido


Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão
e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Augusto dos Anjos

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Carolina

A Carolina
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Asssis.