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segunda-feira, 28 de março de 2011

Haicais

Pintura de Taciane, minha filha de cinco de anos.


Como tudo no Japão é diminuto e eficiente, o haicai não uma exceção.
Para quem não conhece, Haicai é um poema de origem japonesa, que valoriza a concisão e a objetividade e chegou ao Brasil no início do século 20 e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros. No Japão e na maioria dos países do mundo, é conhecido como haiku. O Haicai é feito da seguinte forma:

 -Consiste em 17 sílabas poéticas, divididas em três versos de 5, 7 e 5 sílabas;

- Contém alguma referência à natureza (diferente da natureza humana);
-
 Refere-se a um evento particular (ou seja, não é uma generalização);

- Apresenta tal evento como "acontecendo agora", e não no passado;

- Modernamente, apresenta um cunho humorístico. 

Ouvia sempre meus colegas falaram de haicai. Achava coisa de outro mundo. Meu professor, Zemaria Pinto, tem um livro intitulado “Corpo Enigma” feito em forma de haicai. Mas nunca tinha visto nem ele falava disso. Um dia, na livraria, vi um livro de Millôr Fernandes chamado Raiku do Millôr; li achei fácil e passei a fazer haicai a torto e a direito. Como o Millôr faz o verso de forma livre e rimado, pela influência dele, fiz inicialmente desta maneira. No Japão, é feito sem rima, mas na métrica perfeita. Para mim só tem graça se for rimado. 
Alguns exemplos de autores brasileiros,  japoneses e depois os meus:


 para as pernas:


"asas da manhã
flutuando à luz difusa
na pele do vento" (Zemaria Pinto, parte do Corpo Enigma)


para os seios:
"
raízes plantadas
no vasto campo do corpo
- casulos de sonhos" (Zemaria Pinto, parte do Corpo Enigma)

Velho tanque
 uma rã salta
barulho d'água
   (Bashô)


com pó e mistério
a mulher ao espelho
retoca o adultério
                    (Millôr Fernandes)


quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa
                    (Alice Ruiz)



esnobar
é exigir café fervendo
e deixar esfriar
                       (Millôr Fernandes)




Viva o Brasil
Onde o ano inteiro
É primeiro de abril.
                 (Millôr Fernandes)



Goze.
Quem sabe essa
é a última dose?
                      (Millôr Fernandes)

  
viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície
                         (Paulo Leminski)
                         

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga
                      (Paulo Leminski)

o cético sábio
sorri
só com um lábio
                          (Millôr Fernandes)



maravilha sem par
a televisão
só falta não falar
                               ( Millôr Fernandes)

Agora eis uma amostra dos meus haicais que fiz ao longo de dez anos. Como tenho muitos, vou publicar por parte.

O amigo que me adula
Sempre me faz
De gandula.

Sabe o que é o vento?
É o ar em constante
Movimento.

Quando se envelhece,
Muito padece
Nas filas do INSS.

Chega a ser estranho
Esse salário-mínimo
Por ser muito tacanho.

Nos passa a perna
Quem vai para Suíça
Deixar a grana em Berna.

Quando me esbarro
Num carro no barro,
Com ele me agarro.

Por causa do alcatrão,
O cigarro faz muito
Mal ao coração.

A mulher sai do fogão
Para ir pilotar
Um grande furgão.

Por que o Haicai
Do foco literário
Nuca cai?

O jogador gabola,
Egoísta e fominha
Não passa a bola.

O patrimônio
Não casa eternamente
Com o matrimônio.

A farda de militar
Não dá o direito
A ninguém de matar.

O Brasil não terá jeito
Se os políticos não
Largarem esse trejeito...

O demográfico censo
Não é perpetrado
Com mínimo senso.

Não me livro
Da ignorância
Nem lendo muito livro.

É bom que se previna
Das epidemias
Tomando vacina.

O parlamentar cassado
Por todo país
Está sendo caçado.

O homossexual
Tem distúrbios
De origem hormonal?

Há muita menina
Trabalhando nos
Postos de gasolina.

Ao bar, vai o careca
Tomar cerveja
Em sua caneca.

Na briga na sinuca,
Saiu um jogador com
Galo na nuca.

Quando o Congresso
Vai votar um processo,
Entra em recesso.

Ao morder rapadura
Com força, o matuto
Quebrou a dentadura.

Não sou atleta;
Apenas ando um pouco
De bicicleta.

Eu não me atrevo
A viver exclusivo
Do que escrevo.

Não faço poesia;
Se tenho inspiração,
É só fantasia.

Precede a consciência
O instinto em razão
Da sobrevivência.

Existe uma viagem
Que  dispensa passagem
E também bagagem.

 Qual é o ciclo atual?
É a economia informal,
Ou é o ciclo menstrual?

A jurubeba
Não sara pereba
Mesmo sendo natureba.

O mestre simpático
É o que ensina
De modo didático.

Me recorro a Deus,
Maomé,Oxum,Tupã, Ísis,
Padre Cícero ou a Zeus?

Na fique ansioso,
Porque o pior círculo
É o círculo vicioso.

Coitado do Rabelo:
Cada dia que passa,
Fica com menos cabelo.

Sabe qual é
O crente bule?
É o de pouca fé.

Sou assim musical;
Seja na língua formal
Ou na coloquial.

O amor ideal, linda,
É de quatro paredes
E não o da berlinda.

A política neoliberal
Abre a fronteira do país
Para o mercado mundial.

Não tenho site
Nem computador;
Mas tenho insight.

Se tenho idéia de veneta,
Pego logo um papel,
Lápis ou caneta.

Não paro a leitura
Quando estou curtindo
Uma boa literatura.

Não sou o Maurício...
Mas faço poema
Sem sacrifício.

A televisão
Não dá uma
Boa educação.

Não há mais risco
Ao comprar um disco
Com risco.

Este fatídico calor,
Não adianta nem
Ligar o ventilador.

O filho, amigo,
Se não for bem-criado
Pode ser seu inimigo.

Ficar embaixo, em cima
Tanto faz. Porque nasce
Menino ou menino.

É uma bobagem
Fazer no corpo
Um monte de tatuagem.

É uma confusão
Quando vou passear
De condução.

É um peralta
O canguru que,
Ao se assustar, salta.

Por algum instante,
Só se escutava voz
De alto-falante.

Mesmo de cara no chão,
É uma grande invenção
Esse tal de avião.

Veja, Dona Glória,
Como está linda
A aurora!

Quando componho
Um poema,
Uma boa idéia ponho.

Para a seca do Nordeste,
Não há solução
Com projeto agreste.

Vai passado o viaduto
O político acusado
Com um salvo-conduto.

Para ser um professor,
Não basta ser
Um mero emissor.

Que quer ter esperança,
Tem que garantir o
Futuro com poupança.

A política é um tédio
Que não se cura
Com nenhum remédio.

Ninguém é perfeito
Disso não se exclui
Nem o prefeito.

Não gosto da Madonna
Porque ela é matrona e
muito mandona.

Só há muita crítica
Quando se faz
Propaganda política.

Fico com azia
Quando tomo café
De barriga vazia.

Nessa cidade,
Quem não trabalha
Passa necessidade.

Minha Fortaleza,
Com certeza,
É uma beleza.

Perderam a vergonha
De fumar em público
Cigarro de maconha.

Não se remedeia
A índole de ninguém
Numa cadeia.

Todo mundo rechaça,
Quando se aproxima,
Quem bebeu cachaça.

Ouça e veja,
Conheço a voz de quem
Tomou cerveja.

Acho importante
O servente de pedreiro
Ser também estudante.

O nazista racista
Foi discriminado
Pelo povo fascista.

Foi por um triz,
Escapou de acidente
Até uma atriz.


7 comentários:

  1. bah nao conhecia essa definição. De repente foi pq comecei a entrar mais em poemas e poesia a pouco tempo.

    Mas muito show, bento sales tb é cultura! :D

    Bah as vezes eu me sinto assim:

    Não faço poesia;
    Se tenho inspiração,
    É só fantasia.

    mandou benzaooo!!

    Grande abraço

    http://www.estilodistinto.com

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  2. "Menino chorando
    As lágrimas no chão
    Vai contando" Millor Fernandes.

    Amei seus haicais. Vai publicando mesmo.. alguns vou copiando e logicamente qdo usa-los citarei os direitos autorias.

    Taciane pintou com guache? Estimule-a na aquarela. Ela usa alegremente as cores de uma personalidade forte.

    Abrçs
    :)

    Taciane... Beijnho =:)

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  3. Bento eu não conhecia O Haicai, e você inovando como sempre.
    Abraços e Ótima semana!

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  4. Que forma inteligente
    Que você arrumou
    De ensinar a gente.

    Gostei Bento.

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  5. BENTO, GOSTEI DE SEUS HAICAIS.
    ESTOU COLECIONANDO TODOS ELES.

    ATÉ LOGO!

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  6. Bento,
    O haicai não tem grande expressão em Portugal, mas já o tenho encontrado bastantes vezes em blogues brasileiros. Mas foi aqui que li, pela primeira vez, a explicação do género. Obrigado.

    Abraço

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  7. Bento, esses haicais lembram muito a métrica do cordel, que você também faz muito bem.

    Beijos!

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